Geringonça: desligar a máquina?
- JS Alvalade

- 23 de nov. de 2021
- 3 min de leitura
Atualizado: 24 de nov. de 2021
O chumbo do Orçamento de Estado para 2022, causado por uma falta de entendimentos políticos e ideológicos à esquerda e por uma decisão eleitoralista que foi tomada pelos parceiros à esquerda do Partido Socialista, diagnosticam sérias divergências que afastam o Partido Socialista do Bloco de Esquerda e do PCP, mas também, e é importante referi-lo, que afastam os próprios Bloco de Esquerda e PCP um do outro.
Estes três partidos são diferentes ideologicamente mas têm um grande ponto comum que deve pautar as suas relações: são de esquerda, por muito que por vezes tentem passar a ideia estapafúrdia de que o Partido Socialista não é um partido de esquerda, a verdade é que é à esquerda que tem governado e é à esquerda que creio que continuará a governar quer tenha maioria absoluta, quer hipoteticamente continuasse a governar apoiado na solução parlamentar que foi encontrada em 2015.
Ao longo das últimas legislaturas, a perceção de uma ameaça séria à direita no sentido de esta conseguir governar esbateu-se progressivamente e, como tal, os partidos de esquerda acabaram por negociar recentemente focando-se mais nas suas diferenças ao invés do que estava na matriz da Geringonça, que era a vontade de encontrar os pontos comuns que uniam a esquerda portuguesa, combatendo assim juntos a direita.
Por outro lado, há uma séria questão que afasta o PS dos seus dois ex-parceiros. Essa realidade pode observar-se através da diferença de propostas de Salário Mínimo Nacional. O PCP e o BE defendem uma subida abrupta do salário mínimo, desconsiderando o estado e a capacidade da Economia Nacional, enquanto que o PS defende também um aumento deste valor, mas de forma mais progressiva, ponderada e responsável. Podemos aplicar esta ideia às mais diferentes áreas que podem ser discutidas entre o PS e o BE e o PCP. O Partido Socialista terá sempre de levar em conta uma perspetiva de responsabilidade que, por não governarem, o PCP e o Bloco não têm respeitado. Essa é a tal questão que se deve ter em conta quando se olha para as negociações do Orçamento de Estado para 2022 que fracassaram, e que não deve ser desvalorizada em acordos futuros.
É por isso que afirmo que a Geringonça, enquanto solução estável de governo, pode ter sido desgastada até um ponto onde é difícil sustentar-se a longo prazo. Defendo, portanto, que o Partido Socialista deve pedir de cabeça erguida uma maioria absoluta ao povo, de forma a conseguir aplicar no país um projeto estável de esquerda que assegure as reformas que o país necessita, nomeadamente ao nível do Trabalho, da Saúde e dos Apoios Sociais. No entanto, nunca poderemos deixar de dialogar com os nossos parceiros de Geringonça e, caso necessário, não devemos ter pudores em repetir esta solução que trouxe tantos avanços ao país.
Respondendo à pergunta do título: Não! Penso que cortar relações com o Bloco de Esquerda e com o Partido Comunista seria um erro tremendo que reconstruiria um muro inútil que separava o Centro-esquerda da restante Esquerda. Contudo, seria imprudente e, de certa forma, impossível ignorar a atitude que os mesmos tiveram na negociação do Orçamento de Estado e, portanto, tem de haver uma distanciação clara entre os projetos políticos do PS e do BE e do PCP.
A Geringonça está gravemente doente! Mas não lhe passemos já a certidão de óbito, nem lhe desliguemos a máquina. Em vez disso, temos de defender e apresentar um bom projeto político de Esquerda, que mostre ao eleitorado que o Partido Socialista nunca precisará de ninguém para ser um partido que governa à Esquerda.
João Avelar Dias





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